Escravidão e liberdade em “A Invenção das Asas”, de Sue Monk Kidd

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Eu sempre quis a liberdade, mas nunca tive pra onde ir nem como sair. Não importava mais. Queria liberdade mais do que respirar. A gente iria, em cima dos nossos caixões se precisasse. Foi assim que mamã viveu sua vida. Ela dizia, “Cê tem que saber que lado da agulha vai sê, o que tá amarrado na linha ou o que fura o pano.” – Encrenca.

A Invenção das Asas (adicione ao Skoob) é o terceiro livro de Sue Monk Kidd e foi selecionado para o Clube de Leitura da Oprah. A história começa em novembro de 1803, no 11º aniversário de Sarah Grimké, quando ela é presenteada com uma escrava de dez anos, Hetty “Encrenca”. O livro acompanha 35 anos da vida das duas, marcada por conquistas, perdas, desafios e dores.

[LEIA+: Leia um trecho do livro A Invenção das Asas]

Sarah é nascida na rica e influente família Grimké, em Charleston. É a filha mais nova de John Grimké, um juiz da Carolina do Sul e Mary, uma mulher esnobe, severa e constantemente grávida, nascida em berço de ouro. Aos 11 anos, Sarah ganhou – a contragosto – uma escrava de presente e mesmo sua firme recusa não adiantou de nada, já que esse era o estilo de vida de sua família.

A garota manteve as aparências, mas tornou-se amiga de Encrenca. Ensinou-a a ler, comemorou o aprendizado da garota, lia histórias com ela e compartilhava seus segredos. Desde pequena, Sarah era dotada de opiniões fortes, que ela achava serem encorajadas pelo seu pai. Mas estava enganada, e só percebeu isso quando ela o enfureceu de tal maneira com sua posição anti-escravista que foi proibida de acessar a rica biblioteca do pai.

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“Charlotte disse que eu deveria ajudar a libertar Hetty do jeito que eu pudesse. (…) Quando ela a colocou, eu perguntei: ‘Hetty, você quer aprender a ler?'” – Sarah.

Frustrada com tudo ao seu redor, fez um único pedido à sua mãe: ser madrinha da irmã mais nova, que estava a caminho. É assim que surge Angelina Grimké, ou Nina, uma garota com uma personalidade tão fervorosa quanto a de Sarah, moldada à sua sombra, tão apegada à irmã que a chamava de mãe até certa idade.

Em certo sentido, Sarah e Encrenca são prisioneiras das situações em que vivem. Uma está fadada à viver na sombra da família e seu estilo de vida, com seus sonhos de mudar o mundo guardados em uma caixinha no fundo do armário. Encrenca, por outro lado, é uma escrava e está ligada aos Grimké até que digam o contrário. À medida que as duas crescem, elas deixam de lado a inocência da infância e se tornam temerosas, cansadas, descrentes. Mas a chama da mudança está alojada dentro delas, e tudo pode ser diferente – basta agir. “Se você precisa errar, erre pela audácia“, diz Sarah.

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“…Tenho vinte e sete anos, Encrenca, e essa é a minha vida agora.” Ela olhou em volta da sala, para o candelabro no alto e depois para mim. “…Essa é a minha vida. Bem aqui, pelo resto de meus dias.” Sua voz falou e ela cobriu a boca com a mão. Ela estava presa como eu, mas presa por sua mente, pela mente das pessoas em volta dela, não por lei. Na Igreja Africana, Sr. Vesey dizia: “Cuidado, você pode ser escravizado duas vezes, uma vez pelo corpo e uma vez pela mente.” Tentei dizer isso a ela. Falei: “Meu corpo pode ser escravo, mas não minha mente. Para você, é o contrário.” – Encrenca.

A Invenção das Asas é uma história sobre liberdade, sobre mudança e ousadia. Sue Monk Kidd estudou os feitos de Sarah e Angelina Grimké (dois nomes que fizeram história na luta contra a escravidão americana), além da vida de Hetty, o suficiente para recriar sua infância em uma família escravista e sua luta em se libertar – dos preconceitos, das amarras, da escravidão.

Como recurso para nos conectarmos ainda mais com as personagens, o livro é narrado por Sarah e Hetty em capítulos que se alternam e seguem uma cronologia. Os mais emocionantes, por conta da carga dramática de sobrevivência, são os de Hetty. Ela sofre, ela perde, ela apanha. A ligação com sua mãe, Charlotte, é tão linda, que é difícil não marejar os olhos em algumas partes. Sarah teve seus sonhos podados quando criança, e segue insegura e com dificuldade de se expressar até encontrar sua voz.

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A triste verdade é que você pode andar até ficar com bolha no pé, andar até onde Judas perdeu a bota, e nunca vai andar mais rápido que a dor. – Encrenca.

No final do livro, a autora escreveu uma nota explicando um pouco de sua pesquisa e sua fascinação com a história de Sarah e Angelina Grimké. Ela também fala quem realmente existiu, e quem foi inventado para a história, ajudando o leitor a compreender parte da história escravista dos Estados Unidos.

Ver as pessoas fazendo a diferença quando todas as fichas apostavam contra é algo inspirador. Sue Monk Kidd escreveu uma bela história. Pesada, mas potencialmente transformadora. Recomendo fortemente a leitura de A Invenção das Asas. Se este é um tema que você aprecia, certamente vai se apaixonar.

A Invenção das Asas foi cedido pela Editora Paralela (Companhia das Letras) ao Pipoca Musical por conta da parceria. Acompanhe as novidades da editora nos canais:
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Ficha Técnica

Título: A Invenção das Asas
Autora: Sue Monk Kidd
Editora: Paralela (Companhia das Letras)
Gênero: Romance
Páginas: 238
Compre: Americanas | Submarino
Skoob: adicione na sua estante

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Comentários

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11 comentários via blog

  1. Mariana comentou em

    É do tipo de livro que eu queria ler no momento. Eu realmente pouco sei das época de escravidão americana. A única referencia que eu tenho, na verdade, é o filme Django, do Tarantino.

    ps.: edição linda essa da paralela.

    1. Oi Mari!

      Pois é, eu também estava precisando de um livro assim, caiu como uma luva. Eu gostei muito de Django, é claro, mas indico a leitura de Histórias Cruzadas também (tem um filme bem show também, não sei se você já viu).

      Mas não perca a chance de ler A Invenção das Asas. É espetacular e muito bem feito. Ah! E esse livro que tenho aí nem é a edição final, a edição final está bem mais bonitona. :)

      Beijo!

  2. Este livro deve ser ótimo, já tinha ouvido falar. Gosto muito de histórias inspiradas na realidade. Quero ler!
    Ah, adorei o novo layout do blog, ficou show!! =)
    Beijos.

    1. Oi Letícia,

      Esse livro é fantástico, tomara que tenhas a oportunidade de ler e se apaixonar também. <3

      E que bom que gostou do layout, ficou bonitão né? ♥

      Beijos!

  3. Li tudinho… Li no trabalho e agora aqui em casa… Só tenho uma coisa a dizer: quero ler AGORA…

    Bjs :)

    1. Heheheh, mas leia mesmo, Isa! É simplesmente apaixonante <3

  4. Dorivaldo comentou em

    Temos aqui no Brasil uma personagem tão rica quanto essas: Luíza Mahin, a lendária mãe de Luiz Gama. Luiz Gama, também nasceu livre, como o Salomon do filme “12 anos de escravidão”. Filho de Luiza Mahin e um comerciante português, foi vendido pelo pai quando menino para pagar dívidas de jogo. Veio da Bahia para São Paulo, onde aprendeu a ler, conseguiu sua liberdade, se formou rábula e dedicou a vida a lutar pelos seus irmãos escravos. Foi poeta e jornalista. De Luiza Mahin, diz-se que participou da Revolta dos Malês, escravos muçulmanos na Bahia, mais instruídos. Fazia reuniões no quintal de sua casa. Perseguida, fugiu da Bahia e nunca mais se soube dela, embora houvessem rumores de uma mulher participando de revoltas em outros lugares do Brasil.

  5. Isa do Nascimento comentou em

    Acabei de ler o livro nesta semana, vocês vão ficar paixonado pela encrenca.
    o livro emociona muito, fiquei sem coragem de ler o último capitulo preocupado com o que a acontecer com os personagens.

    Maravilhoso, vale apena ler

    1. É verdade, Isa, eu também li e adorei o livro. Que bom que você gostou, a Sue Monk Kidd arrasou na escrita. :’)