Barba Ensopada de Sangue, de Daniel Galera

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A verdade é essa: comprei o livro sem a menor ideia do que esperar. Não conhecia a história e tão pouco se as críticas eram boas ou ruins. Do autor, Daniel Galera, só sabia que um de seus livros, Até O Dia Em Que O Cão Morreu (2007, Companhia das Letras), resultou em um filme dirigido no mesmo ano por Beto Brant, Cão Sem Dono. Optei a escolha pela curiosidade mesmo. Curiosidade aquela que tive inicialmente após ver uma foto do livro no Instagram de um amigo.

Na livraria, a curiosidade aumentou quando o vendedor dispôs de três livros na minha frente. Isso porque Barba Ensopada de Sangue está disponível em capas nas cores vermelha, verde e azul. Ainda sobre estas, possuem uma textura meio emborrachada, o que nos dá um acabamento diferenciado e um conforto a mais nos momentos de leitura.

Foram 5 dias corridos até chegar na última das 424 páginas. A narrativa do personagem era como um amigo que escrevia cartas de tempos em tempos, descrevendo os lugares e pessoas por onde passava e fornecendo detalhes da história que construía por onde passava. A vontade de terminar o livro era quase zero. Mas não por ser uma leitura chata e sem graça. Justamente pelo contrário. Daniel Galera utiliza da leveza em suas palavras e prende o leitor em sua narrativa rica e cativante.

Somos cúmplices do personagem principal quando este abandona a Capital gaúcha e chega ao balneário de Garopaba, no litoral de Santa Catarina, na companhia de Beta, a cadela de seu falecido pai, e começa a questionar os nativos da vila de pescadores sobre o avô, misteriosamente assassinado décadas antes na mesma cidade em que agora vive. Passado este que os moradores preferem não comentar ou sequer recordar como se o causo fosse mais uma dessas lendas urbanas ou de folclore local.

“O rapaz não diz nada e apenas o encara. É uma reação comum por essas bandas. As pessoas às vezes parecem espantadas por terem sido abordadas, como se dirigir a palavra a alguém fosse a coisa mais insólita que pudesse acontecer.”

Devido à condição neurológica do protagonista – que curiosamente não possui nome e tampouco consegue memorizar os rostos das pessoas – os personagens são nitidamente descritos através dos mais variados sentidos, sejam estes visuais ou através do tato, olfato e até mesmo paladar. Fato este que, por diversas vezes, nos faz sentir íntimos quanto aos personagens e sua relação com o personagem no decorrer da estória.

“Desperta sem abrir os olhos. Há o calor, o cheiro. E uma memória nítida de todas aquelas coisas que prescindem não apenas de um rosto, mas da própria visão. O peso é uma de suas sensações favoritas. Ele a identificaria no ato. Se ela deitasse sobre ele amanhã cedo ou daqui a um ano, tanto faz. E a maneira como um corpo se move. Se está em contato íntimo com o seu, se puder segurá-lo com firmeza usando as duas mãos nos diversos pontos em que se articula e ler dessa forma os seus movimentos voluntários e involuntários, suaves e bruscos, repetidos ou não, poderá reter para sempre uma imagem tátil que lhe dirá bem mais que qualquer estímulo visual sobre como esta pessoa se encolhe e se solta, como pede e recusa como se aproxima e se afasta.”

Parafraseando a sinopse encontrada na editora do livro, Daniel Galera nos fornece um roteiro para os paradigmas da construção de nossas identidades e a dificuldade que temos, por muitas vezes, de entender e reconhecer as pessoas a nossa volta.

[LEIA +: Entrevista do Jornal de Santa Catarina com Daniel Galera.] 

Barba Ensopada de Sangue possui diálogos pouco convencionais, sem travessões ou parágrafos, e por determinadas vezes utiliza de notas de rodapé referentes às SMS ou e-mails redigidos pelos personagens. Ao contrário do que se possa imaginar, o estilo de narrativa não é cansativo ou enfadonho. É apenas mais um artifício do autor para fazer com que esse seja o seu próximo livro de cabeceira.

Ficha Técnica

Título: Barba Ensopada de Sangue
Autor: Daniel Galera
Ano: 2012
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 424

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5 comentários via blog

  1. Não sabia que tinha 3 opções de capa :O Só tinha visto a vermelha e fiquei morrendo de vontade de comprar só pela capa. Adorei a resenha e parece ser beeeeem interessante. Bem grandinho também, mais de 400 páginas!

    1. Tem 3 sim, mas definitivamente a vermelha é a que mais combina, hahaha ♥

  2. Ítalo Costa comentou em

    É um livro bom mesmo. Quando li eu estranhei um pouco essa questão dos diálogos, mas me acostumei. Aliás, você se acostuma tanto com o livro, né? Com os personagens, com o lugar que é bem descrito pelo Galera.
    Beta ♥

    1. César Paladini comentou em

      Ôpa! :)

      Sou suspeito de falar sobre esse livro. Até hoje ele é a minha primeira recomendação quando alguém pede uma sugestão de leitura.

      E é bem isso que você comentou: a gente se acostuma com a leitura, se familiariza com os personagens. É uma leitura que dá saudades antes mesmo do livro terminar.

      Abraço.